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domingo, 24 de janeiro de 2010

Autoshow 11: O mundo está de cabeça para baixo

Aqueles que me lêem com frequência sabem que desde outubro do ano passado tenho escrito sobre o mercado automotivo no jornal gratuito Autoshow e republicado aqui as colunas. Depois de quatro meses de colaboração, pedi à editora que possa interrromper a série por um tempo. Passei a atuar numa montadora e ficaria muito difícil poder falar de meus concorrentes nos meus textos. Se elogiar, pode parecer estranho. Se criticar, parecerá inveja. E se usar exemplos internos parecerá propaganda própria.

Talvez volte, com uma abordagem mais genérica. Por enquanto, fique com esta que foi a última coluna publicada. Ah! Os demais temas de marketing continuarei a postar por aqui.

 

Um foi criado no começo do século passado, no ano de 1907. O outro está na sua décima edição. Um representa as antigas líderes da indústria. O outro representa as tendências do mercado. Estamos falando dos Salões do Automóvel de Detroit e da Índia. Nunca um contraste foi tão claro entre o que representa o passado e o futuro de uma mesma indústria.

Detroit é, e sempre será, a terra de origem da indústria automobilística. Foi lá que floresceu a General Motors, Ford e Chrysler, que dominaram sozinhas por várias décadas. Seu salão nunca foi verdadeiramente mundial, pois o mercado americano sempre foi tão importante que as marcas direcionavam seus lançamentos para o gosto local. Mas não tinha como não prestar atenção ao que acontecia. Todas as tendências de cor, equipamentos e novas tecnologias surgiam ali e rapidamente se difundiam pelo mundo afora.

Nova Deli surgiu no mapa mundial a partir do lançamento do Tata Nano, em 2008. Por maior que o mercado automotivo fosse, foi com a criação do carro mais barato do mundo que os especialistas e público em geral passaram a olhar atentamente para a Índia. Neste ano, a importância do salão é emblemática da mudança do cenário mundial. Aconteceram mais lançamentos no país do terceiro mundo do que na grande potência americana.

Não tem como não perceber esse novo direcionamento. Se nos anos 1990, as montadoras européias que partiram em busca de crescimento nos países emergentes perderam muito dinheiro, pois o crescimento planejado não veio, desta vez parece que os emergentes estão maduros. A liderança em vendas da China é um sinal. O crescimento do mercado brasileiro, outro.

Mas não podemos nos iludir pensando que Detroit está morta. Ainda tem muito caldo a ser tirado no mercado americano. A crise vai passar, as vendas vão voltar e o salão vai recuperar seu prestígio. Como herança, os tamanhos dos automóveis americanos nunca mais serão os mesmos. O downsize é definitivo. E a preocupação com soluções alternativas de combustível também veio para ficar.

Segundo semestre teremos o Salão do Automóvel de São Paulo. Em todos os segmentos o Brasil virou a bola da vez. Precisamos nos preparar para ver o que nos reservam as montadoras. A vocação para produção de carros pequenos tem gerado soluções inteligentes. E o álcool já deixou de ser uma promessa e é uma realidade em nosso país. Falta agora assumirmos o papel que nos cabe no cenário mundial, como lançadores de tendências.

Em outubro vamos ver qual o papel que o mercado mundial nos reserva.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Autoshow 10: Que venham outras marolinhas

No final de 2008, quando, num discurso, o presidente Lula disse que a crise mundial no Brasil seria apenas uma marolinha, muita gente duvidou e comentou que ele não tinha noção do que vinha por aí. O que as pessoas não sabiam era da sua disposição em colocar toda a máquina estatal em favor de encontrar soluções que diminuíssem o impacto nas terras brasileiras. O mercado automotivo ganhou, naquele momento, seu presente de natal.

Com a redução do IPI, as projeções iniciais das montadoras de queda abrupta das vendas não se concretizaram. O que se viu foi um novo recorde, bastando dizer que 2009 será o melhor ano da história para a comercialização de automóveis. Dá até para dizer, imitando o próprio presidente, que nunca na história deste país se vendeu tanto como hoje em dia. Será batida, pela primeira vez, a marca de três milhões de veículos no mercado nacional.

cigarraformiga

Interessante notar a diferença entre o comportamento dos empresários e do povo em geral. Todos os veículos direcionados à produção, tais como caminhões, ônibus, tratores, tiveram queda em suas vendas. Os veículos de passeio, sozinhos, fizeram a mágica dos recordes. Os empresários e executivos se prepararam para o pior e adiaram a renovação de suas frotas, guardando seus dinheiros para o momento da recessão. E o povo em geral, vendo o preço dos carros cair e ficar mais convidativo, passou a consumir mais, como se não houvesse futuro. Foi como a fábula da formiga e a cigarra, só que ao contrário. Desta vez, a formiga que se prepara para o frio, viu a cigarra se dar bem, pois o tempo se manteve quente e não foi necessário parar de cantar.

Importante neste momento é perceber como o mercado automotivo se comporta em cima de percepções e não de fatos. Numa situação comum, o medo de perder o emprego no meio de uma crise levaria qualquer pessoa no mundo a adiar a troca do automóvel. No caso do Brasil, a possibilidade de se aproveitar o preço mais baixo, aliado a uma enxurrada de notícias positivas geradas pelo governo, fez com que os brasileiros saíssem a campo e comprassem seus sonhos de consumo na concessionária mais próxima.

2010 se inicia sob a perspectiva de um novo recorde de vendas e a preocupação de como se comportará o mercado sem a redução do IPI. As montadoras, a essa altura do campeonato, já tem suas projeções. Os anúncios de novos investimentos bilionários mostram que elas esperam anos de boas vendas à frente. E os soluços de mercado em 2009, nos meses de renovação do desconto do IPI, prova que, mesmo com as antecipações das compras pressionadas pelas mensagens de “Aproveite enquanto é tempo” e “Último mês”, o mercado brasileiro está maduro para garantir um volume constante e crescente de vendas.

Da minha parte, só tenho dois comentários a fazer: Que venham novas marolas, pois o resultado foi melhor do que qualquer um poderia imaginar. E que 2010 seja um ótimo ano para você, leitor. Boas festas e feliz ano novo!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Autoshow 9: Em automóvel, luxo é status

À medida que as notícias vão sendo divulgadas, perece fácil vender carros de luxo. Todas as montadoras que comercializam esse tipo de automóvel reportaram crescimento em 2009, ano que começou com o estigma da crise. Mesmo aquelas que ainda não se instalaram no Brasil, divulgam seus planos de comercializarem por aqui seus produtos. Nosso país, acostumado a ser o país dos carros populares, passou a ser referência no mercado dos ultracarros.

Mas onde está a linha de corte entre um carro normal e um de luxo? Qual carro é mais considerado “de luxo”? Um Volkswagen ou um BMW? Se pensarmos somente em preço, um Passat a 119 mil reais seria mais luxuoso do que um BMW Série 1 a 95 mil. Porém, em termos de status, mesmo sendo mais barato, o alemão da BMW é mais considerado que o alemão da Volks.

Aliás, é interessante perceber os sinais passados nos detalhes. É muito diferente chegar numa roda de amigos e dizer “comprei uma Mercedes”. O próprio nome remete a um mundo de pequenos mimos que lhe diferencia dos demais mortais. E veja a chave de um carro de luxo. Sempre vistosa, funciona como uma extensão do próprio carro, em termos de transmitir a imagem de alguém que conseguiu chegar ao topo.

Talvez o marketing seja um dos principais ingredientes disso que chamamos mercado de luxo. A percepção de que as pessoas não querem ser consideradas iguais, de que elas pagam por sinais externos de sucesso, é muito bem utilizado pelos departamentos de produto e marketing para desenvolver automóveis que, mesmo entregando o mesmo resultado, o transporte de um local para outro, agregam vários valores subjetivos que fazem com que as pessoas abram os bolsos e gastem mais.

Importante notar que existem mercados e mercados nesse segmento. Um Mini a R$ 86 mil atende a um nível de consumidor diverso de um Jaguar XKR a R$ 489 mil, ou uma Ferrari 612 a dois milhões e meio de reais. São todos considerados carros de luxo, mas o tamanho dos bolsos e as necessidades psicológicas atendidas completamente diferentes.

O que os torna igual é a dificuldade em alcançar esse público alvo. Quem compra um carro nessa faixa de valor não se convence com um simples comercial de televisão. Isso não é suficiente para criar a imagem de luxo. É mais importante o boca a boca, resultado de ações direcionadas, como a pessoa certa, influente, ao volante do modelo, o patrocínio do evento correto, a matéria do veículo em revistas de estilo de vida. Tudo conta para ajudar a subir o status de um modelo frente a outro.

Apesar da euforia, esse é um mercado muito difícil. Num país de dimensões continentais, a montadora tem de pesar onde investir para conquistar esses prováveis consumidores, sob o risco de gastar o dinheiro sem atingir o público alvo. Mas o Brasil tem evoluído muito no segmento de carros de luxo. Será cada vez mais fácil cruzar com modelos que são verdadeiras jóias nas ruas. Transportando pessoas, mas principalmente transmitindo os sinais de status pelos quais seu proprietário pagou.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Autoshow 9: De volta à época das carruagens sem cavalos

Imagine-se no final do século XIX. Você resolve comprar um automóvel a gasolina, uma carruagem sem cavalos. Segundo comentam, a invenção do futuro. Sai para passear e, depois de alguns quilômetros, volta a pé porque a gasolina acabou e os postos ainda não foram inventados. Pior é chegar em casa e ouvir da esposa: “Eu te disse, besteira comprar essa máquina do diabo! Agora fica aí, tendo que arranjar um bom par de cavalos para puxar de volta aquela coisa...”

Charrete a motor

É assim que o proprietário de um carro elétrico poderá se sentir hoje em dia, possuindo um veículo que não pode ir muito longe de casa, sob o risco de ficar parado no meio do caminho. Você até pensa: “mas energia elétrica tem por toda a parte”. O problema é ter de bater campainha na casa de um desconhecido e pedir para usar a tomada dele. Ou enfrentar uma estrada, sem saber onde será o próximo local com energia disponível.

Esse tipo de dificuldade nunca segurou a raça humana. Não vai ser agora que irá segurar. Creio que temos uma queda para sermos aventureiros. É isso que leva a humanidade para frente. Aparece uma dificuldade e imediatamente vários desbravadores começam a testar soluções para ultrapassá-la. Como os combustíveis fósseis não durarão para sempre, testes e mais testes surgem para continuar a dar mobilidade aos automóveis sem depender de gasolina ou diesel.

Várias são as experiências. O carro híbrido, uma mistura de motores a gasolina e elétrico, já se tornou corriqueiro em países como os Estados Unidos e o Japão. Para se popularizar ainda mais, só falta o preço das baterias cair ao ponto do custo dos carros ser o mesmo de seus primos à combustão. O Brasil tem sido responsável pela maior e mais bem sucedida experiência de combustível renovável, com o aparecimento do motor flexível e sua capacidade de funcionar a base de álcool. Outras idéias, porém, por enquanto não se provaram eficientes, como as células de combustível a hidrogênio, que tem custos proibitivos.

Fantástico foi o pensamento de Shai Agassi, um israelense que criou a Fundação Better Place. Ao invés das pessoas recarregarem as baterias de seus carros elétricos, elas parariam em postos e as trocariam em menos de um minuto por outras já recarregadas. Que ficariam lá sendo reabastecidas para serem usadas por outros. Você compraria o carro e o direito de trocar a bateria sempre que necessário. O projeto já está sendo estudado por mais de 25 países e tem tudo para revolucionar a indústria dos veículos elétricos.

Importante lembrar que as montadoras não estão na indústria dos carros a gasolina, a diesel, ou a álcool. Elas estão na indústria da mobilidade, do transporte, do deslocamento. Elétrico, à combustão, nuclear, não importa a forma de fazer o motor funcionar. Importa lembrar que o consumidor irá comprar o modelo que aliar facilidade no reabastecimento com baixo custo. Resolvida essa equação, o mercado terá encontrado um substituto para a charrete sem cavalos atual.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Autoshow 7: A incrivelmente boa idéia do IPI Verde

Tem certas idéias que depois de criadas parecem óbvias. A gente pensa: Por que não foi feito isso antes? E normalmente não conseguimos encontrar uma boa resposta. Lançada esta semana, a proposta do ministro Miguel Jorge de reduzir o IPI dos carros mais econômicos é uma dessa idéias. Numa época de preocupações ecológicas, premiar as montadoras que se debruçaram sobre o tema é uma iniciativa que permite melhorar o ar das cidades, diminuir a dependência de combustíveis fósseis e valorizar o pensamento ecologicamente correto.

selo-procel

No início dos anos 90, a pressão das montadoras para a diminuição do IPI foi aplacada pelo governo com faixas de impostos diferentes relacionadas à potência dos motores. Surgia a classe dos carros populares, aqueles com motor de até mil cilindradas. Era uma época em que as preocupações ecológicas já despontavam, mas não eram suficientemente fortes para mudar a decisão de consumidores. Criar faixas por cilindrada talvez já fosse uma semente da idéia de premiar os carros mais econômicos com menos impostos, mas poluição ou eficiência naquele momento não eram as razões mais importantes.

Agora surge o Imposto Verde. Já em funcionamento em eletrodomésticos, para ser aplicado aos automóveis necessita da formalização dos seus níveis de eficiência energética. Confuso? Deixe-me esclarecer. Fogões e geladeiras são, há anos, classificados de A a E pelo Procel, órgão governamental, de acordo com o menor ou maior consumo de energia. Você já viu o selo nas lojas. Aquele com várias setas e letras, de verde a vermelho. A partir de 2008, o mesmo conceito passou a ser utilizado nos carros, só que a participação das montadoras se deu de forma voluntária. Somente 31 carros foram analisados.

Para que o imposto seja aplicado, o teste precisa ser feito de forma sistemática nos mais de 450 modelos vendidos no Brasil, nacionais e importados. Isso demanda tempo. Hoje, por exemplo, o Honda Fit 1.4 pagaria menos imposto do que o Celta 1.0, por ser classificado pelo Inmetro no mesmo segmento e ser mais eficiente.

Mas não se engane quem acredita que o perfil de vendas de automóveis no Brasil mudaria radicalmente de um dia para o outro. Modificados os critérios de taxação, imediatamente as prioridades no desenvolvimento também seriam atualizadas. Assim, no lugar da busca por melhores desempenhos dos motores 1.0, as principais montadoras direcionariam seus esforços para a economia. E teríamos novamente um perfil de maior cilindrada/maior imposto. Com honrosas exceções.

De toda forma, apesar das dificuldades de implantação, a proposta é brilhante. Eleva o Brasil ao nível das iniciativas como as da Califórnia, nos Estados Unidos, e da Inglaterra, que já tem incentivos para automóveis mais econômicos. E permite que a população passe a contribuir ainda mais com a questão ambiental. Quem sabe nosso próximo passo é começar a sonhar com os carros elétricos? Agora é esperar para ver.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Autoshow 6: Recall, a maior ferramenta de marketing das montadoras

Existe uma crença popular de que as montadoras evitam a todo custo fazer os famigerados recalls. Pode até ser doloroso, caro, angustiante. Mas as grandes fabricantes já descobriram que eles podem ser uma ferramenta positiva de marketing, se bem utilizados.

recall

Não me entenda mal. Mas é que já trabalhei numa das grandes montadoras brasileiras e o primeiro recall a gente nunca esquece. Num certo dia, o diretor geral me chamou e disse: Precisamos entrar no ar com uma chamada de recall amanhã, no máximo! Quem trabalha com propaganda, facilmente irá entender meu desespero. Você não consegue, em 24 horas, estar com um comercial nas emissoras brasileiras. A não ser que...

Pois é. Naquele dia aprendi a importância de um recall. Tiramos uma campanha do ar e a substituímos por uma chamada para que os clientes comparecessem à concessionária mais próxima. E a frase final do comercial, que citava o respeito ao consumidor, dizia e diz muito para mim até hoje.

Não podemos nos esquecer que é quase impossível não ter problemas numa linha de produção. Não somente de automóveis, mas de qualquer tipo de produto que enfrente essa forma de fabricação. No caso da indústria automotiva, são vários os fatores que contribuem para isso, desde a complexidade do produto, formado por milhares de peças, até o processo em si, que gera diversas chances para que a lei de Murphy (Se alguma coisa pode dar errado, dará) se materialize.

Na maior parte das vezes, os recalls são gerados não por reclamações do consumidor, mas pelos próprios testes de qualidade que continuam a ser feitos nos carros que saem das fábricas. Há pouco tempo, uma das grandes montadoras fez um recall devido a um problema de má fixação do cinto de segurança. Ele surgiu porque o molde do fornecedor teve um desgaste, gerando o inconveniente. Interessante notar que a grande maioria dos carros com o problema não tinha nem três meses de mercado. Mas os testes de campo já indicavam a fadiga da peça. E o consumidor pode ser chamado antes mesmo dela se manifestar.

Qualquer montadora que preze sua imagem conhece os riscos inerentes de não assumir esse tipo de situação e tentar evitar um recall. É como um bumerangue. Você o joga para longe, pensando que se livrou, e ele volta com muito mais força, destruindo tudo que encontra pelo caminho: vendas, reputação e rentabilidade. É mais fácil tratá-la como uma bola de neve, resolvendo no nascedouro e evitando que ela cresça.

Um bom executivo da indústria considera o recall uma ferramenta de marketing tão importante quanto um novo modelo a ser lançado. E sabe que o consumidor também confia mais naquela montadora que não tem medo de corrigir, por si própria, seus próprios erros.

Aquelas que tentam esconder possíveis problemas, com essas não precisamos nos preocupar. O próprio mercado se incumbe de ensiná-las, tirando, pouco a pouco, as vendas de suas mãos. E fazendo com que o medo que elas tem do recall se concretize, eliminando-as do mercado.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

AutoShow 5: Uma paixão que desconhece o conforto

Imagine comprar um carro por 290 dólares em 1925, rodar por 84 anos e, depois, revendê-lo por 32 mil dólares. Parece loucura? Pois esse é o preço de um Ford T anunciado na internet esta semana. É para se pensar. Se é verdade que um carro se desvaloriza só de sair da concessionária, qual é a mágica para um modelo sem direção hidráulica, sem ar-condicionado, sem rádio, sem nenhum dos confortos atuais, se valorizar tanto? Resposta? O Antigomobilismo.

1925 Ford Model T coupe

Alguns colecionam quadros. Outros preferem dedicar tempo a apreciar vinhos. Também existem os que buscam prazer em esportes. Um fanático por veículos antigos reúne as qualidades de todos os tipos de hobby. Um antigomobilista é aquele que aprecia a arte representada pelos carros de época. Com isso, ajuda a conservar parte da história deste que é um dos maiores inventos do ser humano.

O mundo começou a ficar realmente pequeno quando os primeiros carros permitiram atravessar rapidamente enormes distâncias, sem precisar parar para descansar os cavalos. A liberdade passou a ser limitada pelo alcance do tanque de combustível. Ou pela rede de postos de abastecimento. Criadas as condições do desenvolvimento, o resto é história. Aos poucos os carros passaram a significar status e a refletir a moda do momento. Essa evolução o colecionador de carros antigos ajuda a preservar.

É interessante de se perceber que um antigomobilista não é uma pessoa egoísta. Muito antes pelo contrário. Um dos maiores prazeres é compartilhar seu bem com as pessoas. O número de eventos públicos de carros antigos demonstra bem isso. Além do prazer em ficar horas e horas falando de características técnicas, discutindo o mercado passado, as versões existentes, todo tipo de detalhe que mostra o que era ter um carro nos anos em que a gasolina custava centavos.

Lógico que existem tipos e tipos de colecionadores. Há aqueles que tem coleção de um único modelo. Outros, colecionam por ano. Também há os que preferem se dedicar a um tipo de carroceria, ou fábrica. Existem até mesmo os que compram um só carro e dedicam todos os seus momentos de lazer a restaurá-lo centímetro por centímetro.

De toda forma, colecionar carro antigo é uma das melhores formas de prazer que conheço. Não me lembro de nenhum colecionador que não tenha um brilho especial nos olhos quando fala dos seus “filhos”. Não é para menos. Utilizar seus momentos de lazer e se dedicar a um hobby que valoriza acima da inflação? É, no mínimo, um bom negócio. Emocional e financeiro.

Poucos bens materiais tem sua história tão bem preservada. A gente não vê nenhum clube da geladeira se reunindo. Nem existe a associação dos proprietários de fax machines. Talvez, o que se veja no futuro, seja a história da humanidade contada através dos seus meios de locomoção. E o sucesso dessa preservação se deverá a uns poucos apaixonados, que preferem rodar num modelo centenário que num moderníssimo carro zero quilômetro.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Autoshow 4: Personalize seu carro e mostre quem você é

Em 1914, Henry Ford disse uma frase que mostrou o quanto o mercado automotivo estava na sua infância: O cliente pode ter o carro na cor que quiser desde que seja preto. Diferentemente do que muitos pensam, suas razões eram nobres. O preto secava mais rápido, mais de acordo com as necessidades da produção em massa. Foi essa preocupação excessiva com a fabricação que lhe fez perder a liderança para a concorrente. General Motors entendeu melhor os desejos dos consumidores e passou a fazer carros vermelhos, amarelos, verdes, azuis e até pretos!

Quase cem anos depois vivemos o mundo da personalização total. Dentro dela, o tuning é a mais radical forma de expressão. Se no começo do século XX ter um carro preto era o suficiente para se destacar na multidão, muitas vezes hoje somente a cor não garante que você encontre seu carro dentro dos estacionamentos abarrotados dos shopping centers. Quem nunca confundiu seu carro numa garagem qualquer, que atire a primeira pedra.

xtreme_home

Mas qual a razão pela qual o tuning virou uma febre mundial? Por que muitas vezes alguém se predispõe a gastar mais com equipamentos do que com o próprio carro? Talvez a resposta esteja no que o automóvel represente para seus donos.

Poucos objetos são tão representativos da personalidade dos proprietários. Poucos tem o poder de transferir imagem para quem os possui. Pense um pouco: você até classifica uma pessoa pelas roupas que veste, mas ainda assim se vestir é mais democrático do que possuir um automóvel. É impossível comparar o dono de um Rolls-Royce com um de uma Ferrari. Mesmo custando milhares de dólares, a imagem transmitida por cada um dos modelos é completamente diferente.

Agora, como ficamos nós, donos de carros comuns, fabricados aos milhares? Como a gente pode se sentir diferenciado? Esse é o papel da personalização. Tornar palpável a noção de sermos únicos no universo. É como a gente se expõe aos demais, mostrando ao mundo quem somos. Desde o som, que parece deixar qualquer um surdo, mas que inclui o proprietário numa tribo específica. Ou o turbo, que permite uma arrancada mais esperta. Até mesmo a pintura rosa, clara insinuação de feminilidade a la Penélope Charmosa.

Algumas montadoras já perceberam ser essa individualização uma extensão da personalidade de quem compra um carro. A Scion, divisão jovem da Toyota nos Estados Unidos, por exemplo, possibilita a personalização na linha de montagem. Sabe que o jovem é o maior comprador do conceito, pois cresceu tunando seus carros nos jogos de videogame.

Num mundo cada vez mais competitivo, personalizar transformou-se numa fonte de renda extra para os fabricantes. Não é diferente no Brasil. Aquilo que começou discretamente, com uns poucos malucos que viravam de cabeça para baixo seus bólidos, começa a se tornar um negócio altamente lucrativo. Quem sabe daqui a pouco a gente não passe a comprar a personalização e ganhe o carro de graça? Aí sim será o ápice dessa nova tendência.

domingo, 11 de outubro de 2009

Autoshow 2: O pinto pegou a chana de frente

Este é o texto da minha segunda coluna no jornal paulistano Autoshow. Aguardo comentários

 O pinto pegou a chana de frente

Não. Você não leu errado. Nem este texto é para uma revista pornográfica. Vamos traduzir melhor o título: O Ford Pinto pegou a van Chana Family de frente. Agora ficou mais claro que estamos falando da indústria automobilística? E entendeu porque dar nomes é uma coisa tão preocupante para os executivos dessa área?

Podemos dizer que milhões de dólares são gastos anualmente pelas montadoras para achar nomes sugestivos para seus novos modelos. E mesmo assim alguns casos acabam escapando e virando motivo de piada. Famoso é o caso do modelo Chevrolet Nova, que os mexicanos chamavam de Não Vai (em espanhol, no va), brincando com a potência do motor. Apesar de algumas escorregadas, na grande maioria das vezes o resultado é muito positivo. Lógico que mais importante é o nome ser facilmente lembrado e, de preferência, curto. Isso é meio caminho para o sucesso. Coincidentemente, os cinco carros mais vendidos em setembro tem nomes sonoros e simples: Gol, Palio, Uno, Corsa e Celta. O significado original dos nomes até se perdeu. Importa que hoje geram a imagem de carros de sucesso.

Talvez o momento mais importante da decisão de um nome seja escolher entre criar um novo ou permanecer com o antigo, já tradicional. Veja o caso do Gol. A nova geração poderia ter qualquer nome, até porque existe pouca coisa em comum entre a anterior e a atual. Só que o nome é vencedor. E jogar a galinha de ovos de ouro fora é sempre complicado.

Por outro lado, o consumidor tem comportamentos diferentes quando compra de quando vende. Se você pesquisar, no momento da compra, um carro com nome novo é mais valorizado, pois é sempre melhor comprar uma novidade do que uma nova geração. Dá mais status entre os vizinhos e amigos. Porém, no momento da venda, a tradição sempre é valorizada e rende alguns reais a mais. Valoriza mais o carro não ter “saído de linha”. E o fator dinheiro é sempre importante em se tratando de automóvel.

Hoje em dia, o verdadeiro problema é encontrar um nome novo. Quase todos os bons estão ocupados ou registrados, mesmo que não estejam sendo utilizados. E aí reside a dor de cabeça dos executivos. Para encontrar um novo nome, milhares de opções são pesquisadas, uma lista de finalistas vai a consulta popular e os valores ligados a palavra são discutidos à exaustão. Encontrar um tão sugestivo quanto Agile, novo carro da Chevrolet a ser lançado, é resultado de meses de trabalho pesado, mas pode significar a diferença entre o sucesso e fracasso.

Automóvel é um dos maiores símbolos de status e personalidade, no mundo inteiro. Encontrar o nome certo, que transmita esses valores por si só, é o desafio que constrói a história de sucesso de certas marcas. Vamos continuar vendo grandes nomes sendo criados. Mas que os pintos vão continuar pegando as chanas nas esquinas do mundo, isso você pode ter certeza!

 
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